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Hoje é segunda-feira, 06 de Setembro de 2010

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Planejando sua aposentadoria

* Cristina Balerini

Antigamente, falar em aposentadoria era tabu. Hoje, isso mudou. A sensação de ser um peso para a sociedade, ou mais claramente, passar a sentir-se uma pessoa sem utilidade depois de anos de dedicação a uma empresa é uma realidade cada vez mais distante dos profissionais brasileiros, e não só porque o dinheiro recebido da aposentadoria ser, na maioria das vezes, pouco, mas sim porque as pessoas estão vivendo mais, e querem viver esse mais de maneira cada vez melhor.

Segundo estudos do IBGE, a população idosa no País, acima dos 60 anos, era de pouco mais de 10 milhões em 1991. No censo de 2000, esse número já era de cerca de 15 milhões, e as estimativas para os próximos 20 anos indicam que a população idosa poderá ultrapassar os 30 milhões, chegando a representar quase 13% da população. Hoje, os idosos representam 8,6% da população.

Muitas empresas, visualizando essa nova realidade, já estão implantando programas de incentivo e apoio à aposentadoria, programas esse que, além de ajudar o profissional na preparação e no planejamento da sua segunda carreira, o apóiam na concretização deste projeto, oferecendo, inclusive, apoio psicológico. Mas como planejar uma segunda carreira, seja ela vinda da aposentadoria ou por outro motivo?

Segundo o diretor da consultoria francesa BPI, Gilberto Guimarães, o usual é a pessoa começar a pensar nessa segunda carreira no momento da aposentadoria, mas isso não significa que tenha que ser assim. “Às vezes, a empresa demite, e esse é o outro momento, quando você é demitido e percebe que não gostava do que fazia ou que ninguém mais quer te pagar para fazer o que você fazia. Ou, ainda, você não gosta ou aquilo não é mais importante para o mercado. Outro momento é quando você realmente não gosta do que faz, a ponto de estar ficando doente por isso”, avalia Guimarães.

Para o consultor, é importante planejar quando parar e o que fazer na segunda carreira, que hoje em dia deve durar 1/3 do que durou a primeira. Isso significa que alguém que se aposentou depois de 35 anos de carreira, ainda terá muito pra fazer, portanto, precisa planejar esse futuro.

Mas, qual caminho seguir?

Muitas vezes, quando chega esse momento, é difícil para a pessoa decidir, principalmente se ela passou sua vida inteira dedicando-se a uma mesma profissão. Dúvidas surgirão, certamente, e a sensação de só se sentir capacitado para aquele tipo de tarefa, aquela exercida durante anos, também. Nesse momento, é hora de parar e buscar aquilo que mais se gosta de fazer, procurando, é claro, alguém que o remunere por isso. “Não importa o que seja. Sempre haverá cliente para aquilo que ele quer fazer. A moeda, nessa fase, não é mais a remuneração, os ganhos financeiros, mas sim o sentir-se útil, se ocupar, ser desafiado intelectualmente. No momento em que inicia a segunda carreira, o profissional, normalmente, está de volta à fase de precisar de menos dinheiro, e pode trabalhar por prazer, sim”, comenta Guimarães.

A primeira coisa a fazer, então, é definir um projeto de vida em que se possa usar o que se gosta e sabe fazer. Encontrar quem o pague na moeda que lhe permita a sobrevivência e que permita a remuneração adicional na moeda em que o profissional mais quer ser pago, que pode ser reconhecimento, status, poder... Cada um tem a sua.

“O trabalho tem um significado muito maior do que uma simples estratégia de sobrevivência econômica. Ninguém trabalha só para sobreviver. O trabalho significa auto-estima, sentir-se útil, fazer o que gosta, portanto, ‘curtir a vida’ pressupõe trabalhar, pois se você não tem uma atividade, você vai ser excluído socialmente, e isso não é curtir a vida”, alerta Guimarães. Esse alerta vale para aqueles que sonham, depois da aposentadoria, em ficar em casa apenas descansando.

Essa segunda carreira, por exemplo, pode ser colocada em prática em um negócio próprio, numa consultoria, atuando como professor ou em uma ONG. Guimarães ressalta que o profissional não deve pensar na aposentadoria, mas sim em como se preparar para estar eternamente ocupado, sendo útil, trabalhando. “A aposentadoria é legal e não social. É apenas um estágio que lhe permite parar de pagar para o Estado e começar a receber.”

Para o consultor Rodrigo Peixoto, do Grupo Catho, o profissional que está em idade de se aposentar normalmente é aquele profissional maduro, com muitos conhecimentos e experiências. “Para atuar como professor, existe a necessidade de possuir licenciatura, ou se desejar dar aula no ensino superior, é fundamental que tenha cursado Mestrado, pois esta é uma das exigências atuais. No entanto, uma ótima opção é demonstrar interesse em atuar como consultor, pois além de ser um profissional experiente, não sairá muito caro para a empresa, uma vez que a mesma não terá nenhum vinculo empregatício com o profissional. Essa é uma excelente maneira do aposentado continuar no mercado de trabalho, utilizando-se de toda sua experiência”, comenta Peixoto.

Quando começar?

Esse processo deve ocorrer o tempo todo. Segundo Guimarães, o profissional tem que administrar sua carreira e pensar nisso sempre. “Ele não deveria ficar parado nem um minuto; essa transição deveria ser automática. Basicamente, é importante ter um apoio de conselheiros, pois dificilmente uma pessoa é capaz de pensar seu projeto de vida sozinho, assim como é praticamente impossível fazer a auto-análise, a auto-ajuda, os processos psicológicos, sozinho. É sempre bom ter alguém apoiando, que pode ser alguém da família, um amigo, ou pessoa que você confie, mas o ideal é um profissional de RH”.

Iniciar o processo de pensar em uma segunda carreira acontece à medida que a primeira se encerra. Mas quando se encerra a primeira? “Depende de cada um, mas o importante é estar com tudo engatilhado para fazer a transição sem traumas”. Um outro detalhe deve ser observado, comenta Peixoto: pela legislação, o profissional que almejar uma segunda aposentadoria poderá atuar somente no órgão público se a primeira carreira for feita em órgão privado, e vice-versa. “Com isto, o profissional, mesmo que tenha contribuído durante uma carreira toda até a aposentadoria, deverá contribuir novamente para a previdência social para obter esta segunda aposentadoria”.

Futuro planejado

A consultoria BPI, dirigida por Guimarães, criou um programa de aposentadoria chamado “Futuro Planejado”, programa que, além dos aspectos de apoio à nova carreira, aborda também aspectos de planejamento financeiro. O programa, oferecido a empresas, é desenvolvido em grupos ou individualmente. No caso de atendimento individual, o cronograma é definido pelo próprio profissional, com possibilidade de realizar as sessões antes e/ou depois do desligamento. Temas como projeto de vida, projeto profissional, planejamento financeiro, saúde, desenvolvimento cultural e intelectual e possibilidades de trabalho voluntário são tratados nesses encontros.

O programa se organiza em três estágios:

1. Comunicação e mobilização, buscando a adesão dos profissionais.
2. Elaboração do projeto de vida e carreira, por meio do “balanço de competências” e o de "preferências".
3. Elaboração de uma estratégia para implantação do projeto e busca de novas oportunidades e desafios.

O profissional ganha uma senha que lhe permite acessar o BPI Online para recuperar material impresso, enviar questões e receber respostas dos especialistas.

Na opinião de Peixoto, os Programas de Preparação para a Aposentadoria são fruto de uma iniciativa interessante por parte das empresas, que passaram a proporcionar aos seus funcionários (que estão prestes a se aposentar) um espaço de reflexão sobre as possíveis perdas e ganhos relativos ao afastamento do trabalho. Além disso, os programas podem ser uma via para ajudar os trabalhadores a fazer o planejamento dos anos posteriores ao seu desligamento da empresa, pois sugerem o reforço das relações familiares e de amizade, além da elaboração de projetos futuros de vida, ou seja, dão também ênfase à sociabilidade como suporte para se pensar os anos posteriores ao desligamento da empresa. “Com efeito, isto pode ser importante para a vida das pessoas que estão prestes a se aposentar, já que não raras são as vezes em que nos deparamos com quadros de depressão e doenças na pós-aposentadoria”, conclui o consultor.

 

Fonte: Cato online


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